SÃO PAULO — O economista francês Thomas Piketty defendeu que o Brasil mantenha uma atuação internacional voltada à redução das desigualdades, à cooperação econômica e ao combate às mudanças climáticas. Para ele, seguir uma agenda inspirada no nacionalismo de Donald Trump seria ruim para o país e para o mundo.
Piketty afirmou que a situação global piorou nos últimos cinco anos, período em que comparou as condições do mundo às que antecederam a Revolução Francesa. Ele citou o aumento da desigualdade e criticou a influência de tecnobilionários e tecnonacionalistas na formulação de propostas para o futuro.
“É uma visão trumpista do futuro que não está funcionando”, disse o economista, ao mencionar políticas que, na avaliação dele, não resolvem problemas de desenvolvimento e de meio ambiente.
Propostas para a economia global
Piketty liderou uma equipe do World Inequality Lab, da Paris School of Economics, responsável pelo Relatório de Justiça Global. Cerca de 50 pessoas participaram do estudo, que propõe a criação de uma moeda internacional administrada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em substituição ao dólar.
O relatório também defende políticas para elevar a renda per capita global a 5 mil euros até 2100 e reduzir para menos da metade a média internacional de horas trabalhadas. Entre as medidas está ainda a criação de um imposto global sobre a riqueza, especialmente sobre as fortunas dos bilionários.
O economista afirmou que o sistema monetário atual não responde à configuração de uma economia mundial multipolar. Como alternativa, defendeu uma moeda baseada em uma cesta de moedas, incluindo as dos Estados Unidos, da China, da Índia e do Brasil, para financiar o desenvolvimento e investimentos climáticos.
Participação brasileira
Piketty destacou a inclusão, durante a reunião do G20 de 2024, no Rio de Janeiro, de uma menção à importância de tributar os super-ricos. A proposta enfrentou resistência da Argentina, mas continuou sendo defendida pela diplomacia brasileira em negociações realizadas no âmbito da ONU.
A próxima etapa das negociações sobre um sistema tributário internacional será realizada entre novembro e dezembro, no Quênia. O economista também citou uma sessão em Nairóbi, em novembro, com a participação do Brasil e de outros países favoráveis a um imposto sobre os ricos.
“Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido muito mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima”, afirmou.
Para Piketty, países do Sul global podem pressionar por mudanças na tributação internacional e por medidas de reparação climática. Ele disse que o Brasil pode ajudar a articular essa agenda por ser um país grande e por já ter defendido a taxação das fortunas dos bilionários no G20.
O economista avaliou que a esquerda perdeu capacidade de apresentar propostas para reduzir desigualdades e redistribuir riqueza. Segundo ele, a liberalização dos mercados e a redução da progressividade dos impostos prejudicaram pessoas de baixa renda e as classes médias, abrindo espaço para discursos nacionalistas.
Piketty também afirmou que, se o curso atual não mudar, o mundo ficará mais desigual, mais quente e mais instável. Ainda assim, disse acreditar que as forças democráticas prevalecerão e que a pressão do Sul global contribuirá para um futuro multipolar.









