A seca associada ao El Niño agravou a falta de água e alimentos no Corredor Seco da América Central, uma faixa que passa por Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua e Costa Rica. Mais de 10 milhões de pessoas vivem na região, onde mais de 70% da população rural está na pobreza, segundo a ONU.
Em Honduras, agricultores relatam perdas nas plantações de milho e feijão e dificuldades para manter os animais. Juan Estanislao Muñoz, morador de Choluteca, disse que nunca havia visto uma seca como a atual. A primeira colheita não produziu nada, e o segundo ciclo agrícola depende de chuvas que ainda não chegaram.
O agricultor afirmou que sua vaca deixou de comer pasto e passou a consumir terra e folhas. O rio que abastecia famílias em Choluteca virou um caminho de terra e pedras, segundo Lena Savelli, diretora regional do Programa Mundial de Alimentos da ONU para a América Latina.
Insegurança alimentar
O PMA estima que 4,2 milhões de pessoas possam entrar em situação de insegurança alimentar em toda a América Central por causa do El Niño. Em Honduras, o número pode subir de 1,4 para 1,9 milhão. Na América Latina e no Caribe, pelo menos 16 milhões de pessoas a mais podem enfrentar oferta insuficiente de alimentos.
No mundo, a estimativa é que a insegurança alimentar aguda avance de 225 milhões para 274 milhões de pessoas, um aumento de 49 milhões.
Desde março deste ano, o PMA distribuiu ajuda antecipada para mais de 400 mil pessoas no Corredor Seco. A assistência inclui pagamentos equivalentes a US$ 150 por mês, cerca de R$ 785, e sacos de alimentos. Atualmente, mais de 470 mil pessoas afetadas recebem dinheiro para cobrir necessidades urgentes.
Perdas no campo
Em San Lorenzo, Honduras, Darwin Cruz vendeu duas vacas leiteiras e perdeu outra. As três restantes produzem 25% do leite habitual. Em El Matazano, no leste de El Salvador, uma cisterna deixou de sustentar a criação de cerca de 1 mil tilápias e passou a ser usada apenas para necessidades prioritárias.
Na Guatemala, a líder indígena Elvira Pasá afirmou que todas as plantações de milho serão perdidas. Um relatório de agências de ajuda avaliou 58 municípios de Guatemala, Honduras e El Salvador. Dos cerca de 73 mil lares que plantaram milho no primeiro ciclo em 2026, mais de 70 mil relataram perdas. Em 78,6% desses lares, a perda ficou entre 75 e 100% da colheita.
Os governos da região ativaram programas emergenciais, como distribuição de alimentos, crédito para agricultores e kits com sementes de milho mais resistentes à seca. O PMA prevê que os efeitos do El Niño sejam mais fortes em novembro e dezembro e continuem por boa parte de 2027.









