A Antarctica estampou seu nome e logotipo nas cabines de votação usadas no Brasil entre o período da redemocratização e meados dos anos 1990. O patrocínio foi identificado em eleições de todas as esferas realizadas de 1989 a 1998.
O levantamento foi feito a partir de fotografias de eleições passadas. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a Ambev não confirmaram as datas. A assessoria do TSE informou não ter dados para responder sobre o tema. A comunicação da marca declarou que não poderia contribuir com as informações solicitadas.
Dificuldades financeiras
A presença da empresa nas cabines ocorreu em um período de dificuldades orçamentárias da Justiça Eleitoral. O país se preparava para a eleição de 1989, que escolheu Fernando Collor de Mello para a Presidência. Foi o primeiro pleito direto para presidente desde a ditadura militar, que durou de 1964 a 1985.
Especialistas ouvidos sobre o tema avaliam que a legislação eleitoral era pouco clara. A prática não era autorizada expressamente, mas também não havia uma proibição específica. Nesse cenário, a Antarctica teria ajudado a custear parte da infraestrutura necessária para a votação.
O publicitário Marcello Monteiro Gabbay afirmou que havia dificuldades para distribuir todas as cabines no país. O advogado Alberto Rollo disse que, naquele momento, não existia uma preocupação tão grande com a mistura entre recursos privados e o processo eleitoral. O jurista Giuliano Salvarani classificou a legislação como dúbia e afirmou que o debate ético ficava em segundo plano.
Para o consultor de marketing Nino Carvalho, a marca deixou de ser apenas fornecedora de uma estrutura física e passou a se associar simbolicamente à eleição e à instituição democrática. Ele também avaliou que a ação podia não ser ilegal, mas deveria ser questionada do ponto de vista ético.
Mudança de entendimento
A consolidação da democracia trouxe regras mais claras sobre os limites da participação privada no processo de votação. A Lei das Eleições, de 1997, passou a ser interpretada como incompatível com o uso comercial de materiais ligados ao pleito, embora não tratasse diretamente das cabines.
O artigo 44 proíbe a utilização comercial ou a propaganda feita para promover uma marca ou produto, inclusive de forma disfarçada ou subliminar. Para o jurista Carlos Ari Sundfeld, essa regra poderia ser ampliada para alcançar o patrocínio das cabines.
Um entendimento do TSE de 16 de dezembro de 2003 rejeitou a possibilidade de patrocínio de cabines de votação e formulários de justificativa. Cinco anos mais tarde, o tribunal reafirmou a posição. A justificativa foi a necessidade de preservar a independência da Justiça Eleitoral sem referências a entidades ou empresas públicas ou privadas.
A marca e a lei seca
As imagens das cabines da Antarctica ainda são lembradas e aparecem em memes. Um dos registros mais conhecidos mostra o piloto Ayrton Senna da Silva votando em 1989.
A associação com a cerveja também criou uma ironia. A chamada lei seca, uma tradição administrativa regionalizada, passou a ser adotada em boa parte do país nos anos 1990. A regra permite que cada estado defina se restringe a venda e o consumo de bebidas alcoólicas no dia da eleição.
A medida busca reduzir conflitos e tumultos e preservar a consciência do eleitor. Especialistas observaram que a presença de uma marca ligada à cerveja dentro da cabine contrastava com as restrições ao álcool durante a votação.
A Antarctica também produzia refrigerantes, mas o símbolo usado nas cabines era a imagem dos dois pinguins associada ao rótulo da cerveja. Para Carvalho, o efeito de marketing pretendido estava especialmente ligado à bebida alcoólica.









