A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) passou a ocupar o centro da eleição, com decisões conflitantes, disputas entre ministros e investigações relacionadas ao Banco Master. O cenário reduziu o espaço para propostas dos candidatos e aumentou a desconfiança dos eleitores em relação ao Judiciário.
Na semana anterior ao primeiro turno, André Mendonça determinou a remoção de publicações que associavam Flávio Bolsonaro (PL) a um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Flávio Dino suspendeu a medida, mas Luiz Fux restabeleceu as restrições. Depois, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manteve a proibição da associação, embora tenha suavizado parte das determinações iniciais.
As decisões também alteraram a organização de um debate presidencial, que acabou cancelado. Uma determinação proibiu a exibição de uma cadeira vazia para representar Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que não participaria do encontro. Outra decisão determinou a inclusão de Renan Santos (Missão).
Propostas ficaram em segundo plano
Marco Antonio Teixeira, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirmou que a crise do Banco Master e do Supremo tirou o foco da agenda eleitoral. Segundo ele, as campanhas ficaram mais reativas a novidades e revelações do que voltadas à apresentação de propostas.
Uma pesquisa Quaest divulgada no início de setembro mostrou que 45% dos eleitores consideravam as propostas o principal critério para escolher o voto. Ainda assim, poucas propostas foram discutidas entre os presidenciáveis. Para Teixeira, a ausência de Lula e Flávio nos debates contribuiu para o esvaziamento da discussão.
O professor também avaliou que a indefinição pode aumentar as abstenções. No primeiro turno de 2022, 32 milhões de pessoas não votaram, número 60% maior do que em 2002, quando cerca de 20 milhões deixaram de comparecer. Christian Lynch, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), disse que a abstenção pode superar a de 2022.
A desconfiança em relação ao Supremo também atingiu o maior nível entre as instituições avaliadas em uma pesquisa Datafolha: 48% dos eleitores disseram não confiar na Corte. O índice foi de 45% para o Congresso e os partidos políticos, 42% para a Presidência, 33% para a imprensa, 23% para grandes empresas brasileiras e 25% para as Forças Armadas.
Investigações sobre o Banco Master
As suspeitas envolvendo o Banco Master incluem relações entre o banqueiro Daniel Vorcaro e autoridades. Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro do ano passado e voltou à prisão no início de março. Parte das investigações passou por Dias Toffoli e André Mendonça e agora está sob a relatoria de Edson Fachin.
Toffoli deixou a relatoria e declarou-se suspeito após surgirem informações sobre mensagens, pagamentos e negócios ligados à Maridt Participações, empresa familiar da qual é sócio. Também passaram a ser analisadas possíveis relações entre Vorcaro e Alexandre de Moraes.
Mensagens enviadas por Flávio Bolsonaro a Vorcaro também vieram a público. O senador teria pedido recursos para o filme Dark Horse, sobre a história de seu pai. O repasse acertado teria chegado a US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões à época, dos quais R$ 61 milhões teriam sido liberados entre fevereiro e maio de 2025.
A Polícia Federal investiga se o dinheiro foi usado para financiar a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e articulações por punições ao Brasil. A pedido de Mendonça, Flávio é investigado por lavagem de dinheiro, corrupção e outros possíveis crimes relacionados ao financiamento do filme.
Para Fernando Neisser, professor de Direito Eleitoral da FGV/SP, decisões judiciais já afetaram eleições anteriores. Ele citou a verticalização das coligações, aprovada pelo TSE em 2002, e o conflito entre Ricardo Lewandowski e Luiz Fux sobre uma entrevista de Lula em 2018.
Neisser avaliou que a diferença atual é a crise de confiança inédita no Supremo e a exposição pública das opiniões políticas dos ministros. Para ele, o resultado da eleição de 2026 poderá definir o caminho da crise, com possibilidade de avanço de investigações internas ou de busca por diálogo entre os integrantes da Corte.








