A relação entre Canadá e Estados Unidos entrou em uma fase de tensão comercial e diplomática após a imposição de tarifas por Donald Trump. A medida elevou a desconfiança entre os governos e levou Ottawa a reagir, colocando em dúvida um modelo de integração econômica construído ao longo de décadas.
Trump aplicou tarifas de 50% sobre US$ 27,6 bilhões em exportações canadenses destinadas aos Estados Unidos. O Canadá respondeu às medidas, apesar da forte dependência de sua economia em relação ao mercado americano. Uma pesquisa citada pelo Council on Foreign Relations (CFR) mostrou que 41% dos canadenses passaram a considerar os Estados Unidos um “país inimigo”.
A aproximação econômica entre os dois países começou com o Acordo de Livre Comércio de 1988 e avançou com a Nafta e, depois, com o USMCA — United States-Mexico-Canada Agreement. O acordo representa até 30% do PIB global. Mais de 70% das exportações do Canadá passaram a ter os Estados Unidos como destino.
Retaliação e mudança de percepção
O CFR afirma que as divergências entre Ottawa e Washington não começaram no atual governo. Os dois países já haviam entrado em disputas sobre pesca, a construção do Canal de São Lourenço e barreiras comerciais envolvendo madeira e produtos agrícolas. A diferença, agora, estaria na intensidade do confronto e na disposição canadense de arcar com os custos de uma reação.
Além das tarifas, declarações de Trump sobre a possibilidade de transformar o Canadá no 51º estado americano e provocações dirigidas ao primeiro-ministro Mark Carney aumentaram a insegurança e a irritação entre os canadenses.
Carney adotou o slogan de campanha “Elbows Up”, expressão defensiva do hóquei, para defender uma postura de resistência às pressões de Washington. A estratégia, segundo a avaliação do CFR, combinou cálculo político e econômico: o primeiro-ministro havia prometido enfrentar Trump e precisava mostrar que medidas americanas também poderiam gerar prejuízos para os Estados Unidos.
Rohinton Medhora, professor da McGill University e pesquisador do Centre for International Governance Innovation, afirmou que Ottawa precisava demonstrar disposição para pagar um preço e, assim, criar custos para os Estados Unidos e preservar sua capacidade de negociação.
Setores interligados
A disputa alcança áreas em que as duas economias dependem uma da outra. O CFR cita as pressões de Trump sobre a Bombardier, que possui uma cadeia de fornecedores nos Estados Unidos, e propostas para transferir parte da produção automotiva canadense para o território americano.
Para o Canadá, o conflito deixou de ser apenas uma discussão sobre tarifas. As exigências de Washington passaram a levantar dúvidas sobre a segurança de uma relação econômica baseada na expectativa de estabilidade e sobre o uso da integração como instrumento de pressão política.
Ainda não está claro se o rompimento das negociações comerciais em agosto será um impasse duradouro ou uma etapa para um novo acordo. Trump voltou a demonstrar otimismo sobre um entendimento, mas a instabilidade recente já mudou a percepção canadense sobre a dependência dos Estados Unidos.
O Canadá também passou a buscar alianças com a União Europeia, que enfrenta problemas semelhantes com o líder americano. Mesmo com um eventual novo acordo, a avaliação do CFR é que Ottawa deverá procurar novos mercados e ampliar suas alternativas comerciais para reduzir a vulnerabilidade econômica.
Para Medhora, os acontecimentos representam o início de uma transição para um modelo menos dependente dos Estados Unidos. O processo pode transformar gradualmente uma das relações econômicas mais integradas do mundo e gerar custos para as duas economias.








