NOVA YORK — Sekou Siby deveria estar trabalhando no Windows on the World na manhã de 11 de setembro de 2001. O cozinheiro, então com 36 anos, havia trocado de turno com Moisés Rivas e estava em casa, ao lado da esposa grávida, quando recebeu a notícia de que a Torre Norte estava em chamas.
Rivas era um músico equatoriano que tocava em uma banda nos fins de semana. Ele precisava de folga no domingo e, dias antes, Siby havia trabalhado em seu lugar. Na terça-feira, Rivas retribuiu o favor e assumiu o turno de Siby na cozinha.
Depois de ser acordado pela esposa de um colega, Siby ligou a televisão e viu a fumaça saindo das Torres Gêmeas. Ele tentou telefonar para a cozinha do restaurante, mas ninguém atendeu. Mais tarde, descobriu que Rivas estava entre as mais de 2.700 pessoas mortas no World Trade Center.
“Você não consegue imaginar perder toda a equipe da manhã — todas as pessoas com quem você costumava interagir — todas sumiram”, disse Siby. Ele também perdeu Abdoul Karim, amigo e colega de trabalho que considerava um irmão mais velho.
Da Costa do Marfim à cozinha do restaurante
Siby deixou a Costa do Marfim e chegou aos Estados Unidos em 1996. Antes, lecionava francês. Nos dois primeiros anos no país, trabalhou como entregador em um supermercado e fez aulas de inglês.
Em outubro de 1998, conseguiu emprego como auxiliar de cozinha no Windows on the World, onde recebia US$ 8 a hora e preparava cebolas, batatas e camarões. Ao aprender técnicas de corte, foi promovido a cozinheiro e passou a ganhar 12 dólares por hora.
O restaurante havia sido inaugurado em 1976, no alto da Torre Norte, a 400 metros de altura. A equipe reunia trabalhadores imigrantes de diferentes regiões, que também se encontravam em um parque no Queens para compartilhar comida e conversar sobre as dificuldades ligadas à imigração.
No fim de 2000, a esposa de Siby foi morar com ele em Nova York. Os dois esperavam uma filha quando ocorreu o ataque. Ela nasceu em 3 de outubro de 2001, em um período de luto para o pai.
Culpa e mudança de vida
Siby e outros colegas sobreviventes procuraram informações em hospitais. Como alguns funcionários não tinham documentos e falavam pouco inglês, ele ajudou familiares a buscar respostas. Depois, ficou claro que ninguém acima da zona de impacto da Torre Norte havia escapado.
Após os ataques, Siby não voltou a trabalhar em restaurantes. Tornou-se motorista de táxi e evitou empregos que exigiam interação social. “Não fazia sentido fazer amigos e perdê-los”, afirmou.
Com o tempo, passou a ajudar sobreviventes e trabalhadores de restaurantes que perderam seus empregos. Também atuou em organizações voltadas a famílias afetadas pelos ataques e foi presidente da Restaurant Opportunities Centers United, entidade que defende os direitos de trabalhadores de restaurantes.
Hoje, é cidadão americano, tem doutorado em administração de empresas pela Universidade de Phoenix e é dono de uma empresa de consultoria de gestão para organizações sem fins lucrativos.
Encontro com a viúva de Rivas
Cerca de cinco anos atrás, em um encontro de familiares de ex-funcionários do Windows on the World, Siby ouviu Elizabeth Rivas contar a história da morte do marido. Ela disse que Moisés não estava escalado para trabalhar naquele dia, mas havia trocado de turno com outro funcionário.
Siby percebeu que ela falava sobre ele e se aproximou. “Tive que dizer a ela: 'Essa pessoa, essa sou eu'”, contou. Elizabeth chorou. O encontro aumentou a culpa que ele carregava, embora Siby também tenha tentado lembrar que não era responsável pelo que aconteceu.
Moisés Rivas era pai de dois filhos e queria se tornar chef e músico. Nos minutos após o avião atingir a torre, deixou uma mensagem para a esposa dizendo que a amava.
Siby deixou de frequentar os encontros do Windows on the World para se concentrar na família e no futuro. Em uma visita ao memorial do World Trade Center, parou diante dos nomes dos antigos colegas gravados na pedra e tocou o nome de Rivas.
“Este deveria ser o meu nome”, disse.








