O looksmaxxing, expressão usada para descrever a tentativa de maximizar a própria aparência, ganhou espaço em comunidades masculinas na internet e também chegou aos consultórios. A prática pode envolver cuidados com pele, cabelo, alimentação e exercícios, mas inclui, em alguns casos, intervenções agressivas para mudar o rosto e o corpo.
Um artigo publicado em 2026 pela Pediatrics, da Academia Americana de Pediatria, aponta que adolescentes já usam termos ligados ao formato da mandíbula, à simetria facial, à musculatura e a procedimentos estéticos.
Quando a busca por resultados passa dos limites
Entre os padrões mais valorizados estão um corpo muito musculoso, baixo percentual de gordura, mandíbula marcada, cabelos fartos e características sexuais consideradas desejáveis. Nas redes sociais, a comparação com influenciadores pode fazer com que a pessoa nunca considere suficiente o resultado alcançado.
A pressão pode levar a dietas extremas, treinamento excessivo e uso de substâncias para acelerar o ganho de massa muscular. Para o cardiologista Carlos Alberto Pastore, o principal alerta está no uso de esteroides anabolizantes sem indicação médica.
Um estudo publicado em 2025 na revista Circulation acompanhou 1.189 homens identificados pelo uso dessas substâncias e comparou os resultados com os de mais de 59 mil homens da população geral. Após aproximadamente 11 anos de acompanhamento, os usuários tiveram risco três vezes maior de infarto, 2,3 vezes maior de arritmias e 3,6 vezes maior de insuficiência cardíaca. O risco de cardiomiopatia foi quase nove vezes maior.
Os dados não indicam que a musculação prejudique o coração. Atividade física regular e treinamento de força feitos adequadamente fazem parte de um estilo de vida saudável. A preocupação está em estratégias potencialmente perigosas para acelerar resultados ou ultrapassar os limites naturais do organismo.
Alterações no coração e atenção aos jovens
Os esteroides anabolizantes estão associados a mudanças na pressão arterial e no colesterol, aterosclerose e alterações estruturais cardíacas. Uma delas é a hipertrofia do ventrículo esquerdo, caracterizada pelo espessamento do músculo do coração e que pode vir acompanhada de perda de função.
Uma pesquisa publicada em 2026 no JACC: Advances encontrou hipertrofia ventricular esquerda em cerca de um terço dos usuários de longo prazo avaliados. Entre os que apresentavam a alteração, também foram observados sinais mais importantes de comprometimento da função cardíaca.
Informações sobre dietas, suplementos, hormônios e outras substâncias circulam com facilidade nas redes, muitas vezes acompanhadas de imagens de resultados, mas sem detalhes sobre riscos, efeitos adversos ou acompanhamento médico. Pais devem conhecer o conteúdo consumido pelos filhos e as pessoas que eles seguem.
Mudanças radicais na alimentação, preocupação excessiva com partes do corpo, treinamento desproporcional ou interesse repentino por hormônios e substâncias para ganho muscular merecem atenção. No consultório cardiológico, Pastore defende que perguntas sobre hormônios, anabolizantes e outras substâncias façam parte da avaliação.
Carlos Alberto Pastore é cardiologista e livre-docente pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), além de membro da Brazil Health.








