SÃO PAULO — O engenheiro civil que vistoriou a obra que desabou na Penha, zona leste de São Paulo, identificou falhas estruturais e recomendou a retirada das famílias do imóvel vizinho. O depoimento foi prestado na última sexta-feira (18/9) à Controladoria Geral do Município (CGM).
Seis pessoas morreram no desabamento, ocorrido no último dia 12 de setembro. A estrutura de um prédio em construção caiu sobre uma casa na Rua Tequici por volta das 2h. Oito pessoas estavam no imóvel. Duas foram resgatadas com vida: um homem de cerca de 30 anos e uma menina de 5 anos. Entre os mortos estavam uma mulher grávida e uma criança. As vítimas eram da Bolívia e do Paraguai.
Problemas apontados na vistoria
A empresa do engenheiro Fábio José de Oliveira foi procurada pela construtora New Home, responsável pela obra. Ele esteve no endereço em fevereiro de 2026 e encontrou divergências entre o projeto e o alvará. O documento previa 39 unidades habitacionais, mas cerca de 50 haviam sido projetadas.
Também foram identificados estreitamento nas escadas, falta de adequação às normas do Corpo de Bombeiros, ausência de reservatório para combate a incêndio e falta de previsão de caixa d’água no projeto.
Nos imóveis vizinhos, o engenheiro observou que a construção “puxava uma das casas e empurrava outra”. Na casa atingida, havia rachaduras nos muros e na sarjeta, com impacto também na calçada. Por causa do risco de colapso, ele recomendou a remoção da família que ocupava o imóvel vizinho.
O profissional pediu ainda uma análise do uso do solo. A empresa respondeu que “não possuía e/ou iria verificar” a disponibilidade do documento. Segundo o engenheiro, a New Home informou ter R$ 670 mil para reestruturar o imóvel, mas o valor não seria suficiente. O orçamento indicou a necessidade de até R$ 5 milhões para deixar a estrutura em condições habitáveis. Depois da vistoria, a construtora não continuou a contratação da empresa.
Investigação
A Polícia Civil informou que quatro pessoas podem ser indiciadas por homicídio com dolo eventual. Três são sócios da construtora e tiveram mandados de prisão temporária expedidos pela Justiça. Ronaldo Vivacqua, apontado como sócio oculto da New Home, foi preso no domingo (13/9). Cristiano Vivacqua, filho dele e responsável técnico pela obra, e Ísis Brandão, proprietária formal da empresa, estão foragidos.
A servidora Viviane Rodrigues de Palma também pode ser indiciada. Ela assinou um documento que atestava a demolição do prédio em 2024. Coordenadora de Planejamento e Desenvolvimento Urbano da Subprefeitura da Penha, Viviane foi afastada por 120 dias e prestou depoimento na terça (15/9).
A delegada Deidiene Fialho afirmou que o caso envolve uma sequência de eventos. Em 2019, a Prefeitura de São Paulo autuou e interditou a obra por falta de alvará. Em 2021, a Procuradoria-Geral do Município entrou na Justiça para impedir o avanço da construção.
A autorização para uma nova edificação foi condicionada à demolição da estrutura existente. Segundo a delegada, a obra continuou sobre a fundação antiga. Viviane declarou à polícia que visitou o local em 2024 para vistoriar a autorização do alvará. As informações serão confrontadas com processos administrativos e judiciais.
A defesa da servidora afirma que um procedimento financeiro citado no caso foi aberto em 2020, antes de sua atuação na obra, e permanece em análise.






