O mercado brasileiro de medicamentos conhecidos como canetas emagrecedoras deve crescer 35% ao ano até 2030, segundo estimativa da Strategy&, consultoria estratégica da PwC. A projeção é que o setor passe de 2 bilhões de dólares em 2025 para 9 bilhões em 2030. No ano passado, as importações desses produtos somaram 1,7 bilhão de dólares.
Mounjaro, Ozempic e Wegovy são medicamentos do grupo dos agonistas do receptor GLP-1, desenvolvidos para tratar o diabetes tipo 2. Eles também ganharam espaço por reduzirem o apetite e ajudarem na perda de peso. Com porções menores, consumidores tendem a buscar alimentos mais nutritivos, especialmente com proteínas e fibras.
Empresas reformulam produtos
A mudança já aparece nas prateleiras, com o lançamento de alimentos enriquecidos com proteína. Luciana Medeiros, sócia e líder da indústria de Varejo e Consumo da PwC, afirma que os grandes varejistas estão ampliando o espaço para suplementos e produtos com fibras ou proteína.
A Genu-in, criada pela JBS Novos Negócios em 2022, fornece peptídeos de colágeno para produtos como a cerveja Spaten Pro e a Mamba Water Protein, que tem 20 gramas de proteína por lata. A empresa exporta para 14 países.
A Seara lançou uma linha de refeições prontas congeladas com baixa caloria e pelo menos 30 gramas de proteína por porção. A Seara Protein já representa 25% das vendas de refeições prontas, e o cardápio passou de 3 para 13 pratos, segundo Rafael Palmer, diretor de marketing de alimentos preparados da empresa.
A MBRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, também aumentou o teor de proteínas em produtos como nuggets, lasanhas, tortas de frango e outras refeições congeladas. Luiz Franco, diretor de marketing da companhia, relaciona a busca por proteína a temas como saciedade, bem-estar, prática esportiva e escolhas nutricionais.
Impacto no consumo
Nos Estados Unidos, um estudo com 150.000 domicílios registrou queda de 5,3% nos gastos com supermercado após seis meses de tratamento, chegando a 8,2% entre consumidores de renda mais alta. As compras de petiscos salgados recuaram pouco mais de 10%, e os gastos com fast-food caíram 8%. Além disso, 37% dos usuários disseram beber menos álcool.
No Brasil, a Liv Up, empresa paulistana de refeições prontas congeladas, informou que a parcela de clientes que já usaram os medicamentos passou de 4% há um ano para 8% há seis meses e 14% atualmente. Entre eles, as marmitas de cerca de 300 calorias representaram 27% dos itens do carrinho em agosto, contra 14% na base geral.
Duas linhas criadas para usuários de GLP-1, com baixa caloria e mais proteínas e fibras, devem gerar 120 milhões de reais em receitas neste ano, segundo a empresa. “Quando o apetite diminui, cada refeição ganha importância”, afirma Victor Santos, CEO da Liv Up.
A expansão também alcançou outras faixas de renda. Pesquisa do Instituto Locomotiva indica que um em cada três domicílios brasileiros tem ou teve um morador usuário das canetas. Pedidos rastreados pela Serasa Experian passaram de 54.000 em janeiro de 2025 para 293.000 em novembro. No total, foram quase 2 milhões de pedidos no ano, com movimentação de 3,1 bilhões de reais. No primeiro semestre de 2026, os pedidos cresceram 149% na comparação anual.
A patente da semaglutida, princípio ativo de Ozempic e Wegovy, expirou em 20 de março. A regra exige desconto mínimo de 35% para os genéricos em relação ao medicamento de referência. Para a indústria de alimentos, a expansão dos GLP-1 reforça a transição de um modelo baseado em volume para outro centrado no valor nutricional e no tamanho das porções.








