O Brasil tem uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, mas precisa ampliar e modernizar sua rede para transformar essa vantagem em desenvolvimento econômico. Cerca de 90% da matriz elétrica nacional é composta por fontes renováveis, enquanto a média mundial está em torno de 30%.
O país encerrou 2025 com capacidade instalada de geração quase três vezes superior ao consumo médio. Também conta com recursos naturais, indústria, tecnologia e experiência na operação de um sistema elétrico de escala continental. O desafio, porém, é fazer a energia chegar aos locais onde estão ou poderão estar os grandes consumidores.
Expansão da infraestrutura
Cerca de 99% do país está conectado ao Sistema Interligado Nacional, o SIN. A estrutura permite integrar diferentes fontes e regiões, mas precisa se adaptar à expansão das renováveis, à descentralização da geração, ao armazenamento, à digitalização e a eventos climáticos extremos.
O Brasil possui mais de 180 mil quilômetros de linhas de transmissão. A modernização deve aumentar a inteligência, a flexibilidade e a capacidade de resposta do sistema. Cortes de geração renovável, limitações de transmissão e armazenamento e falta de mecanismos de ressarcimento já afetam a confiança de investidores e financiadores.
A eletrificação da economia também cria novos consumidores, como data centers, sistemas de inteligência artificial, mobilidade elétrica, hidrogênio verde, siderurgia de baixo carbono e automação de edifícios. A conexão desses projetos pode elevar a demanda e estimular investimentos em geração, transmissão, armazenamento e tecnologia.
Para Glauco Freitas, presidente da Hitachi Energy no Brasil e Head of South LATAM, a infraestrutura elétrica deve ser tratada como uma condição para o crescimento, e não apenas como consequência dele. O planejamento precisa considerar ciclos superiores aos eleitorais, já que os equipamentos instalados hoje podem permanecer em operação por 20 ou 30 anos.
Regulação e segurança
A expansão também exige discussão sobre tarifas, remuneração dos investimentos e proteção ao consumidor. Linhas de transmissão podem liberar geração, viabilizar indústrias, apoiar novos data centers e cadeias de hidrogênio verde e ampliar a atividade econômica. Por isso, a infraestrutura não deve ser avaliada apenas como custo.
Critérios como confiabilidade, segurança, histórico operacional, suporte local e capacidade de manutenção ao longo do ciclo de vida precisam pesar nas decisões. A redução de prazos e de CAPEX não deve transferir riscos para o futuro.
A tecnologia para transmissão, automação, armazenamento e modernização de subestações já existe. O desafio é implementar essas soluções na velocidade e na escala necessárias. Uma integração energética mais robusta na América Latina também pode ampliar a segurança do sistema, reduzir custos e aumentar a atratividade regional.
A transição energética, portanto, envolve também desenvolvimento industrial. Cada nova conexão e cada modernização da rede podem ampliar a capacidade de receber investimentos, desenvolver cadeias produtivas, gerar empregos e incorporar tecnologia. Como resume Freitas: “sem transmissão, não há transição”.








