O varejo brasileiro passa por uma transformação marcada pela pressão sobre empresas com estruturas pesadas, estoques elevados, endividamento e dependência excessiva de crédito. A avaliação é de Paulo Brenha, executivo, estrategista e líder no varejo brasileiro.
Brenha afirma que não há uma única crise no setor. Segundo ele, há segmentos em crescimento e empresas que ainda encontram oportunidades. Os problemas estariam mais concentrados em modelos que perderam eficiência e passaram a enfrentar limites operacionais e financeiros.
Os juros altos ampliam essa pressão ao encarecer o capital de giro, o financiamento de estoques e o custo das dívidas. Na avaliação do executivo, porém, esse fator não explica sozinho as dificuldades. Em muitos casos, os juros apenas tornaram mais visíveis fragilidades que já existiam.
Crescimento sob revisão
Durante anos, aumento no número de lojas, faturamento e participação de mercado foram tratados como sinais de força. Para Brenha, essas métricas não garantem, isoladamente, geração de caixa. Uma empresa pode vender mais, manter lojas cheias e, ainda assim, comprometer o futuro da operação.
A produtividade deve ganhar espaço nas decisões do próximo ciclo, segundo o especialista. Entre as questões que precisam fazer parte da gestão estão o resultado de cada loja, o capital parado em estoque, a margem depois dos custos, o valor gasto para conquistar clientes e o dinheiro necessário para financiar a expansão.
O consumidor também passou a escolher mais diante do orçamento pressionado. Pesquisa preços, compara canais, espera promoções, troca marcas e prioriza o que considera importante. Esse comportamento exige operações eficientes e propostas de valor mais claras.
A loja física continua tendo espaço, mas cada ponto de venda precisa justificar sua existência pela venda, pela experiência, pela conveniência, pelo serviço ou pelo apoio à estratégia omnicanal. O mesmo princípio vale para portfólio, processos, equipes, canais e investimentos.
Recuperação financeira não basta
A recuperação judicial pode ajudar a reorganizar dívidas e preservar uma empresa. Mas, para Brenha, a reorganização do passivo não melhora sozinha a experiência do consumidor, o sortimento, a produtividade das lojas ou a execução comercial. Sem mudanças no modelo de negócio, a medida apenas prolonga o problema.
O executivo avalia que o momento representa menos uma crise de consumo e mais uma crise de modelos de gestão. Entre as decisões possíveis estão fechamento de lojas, venda de ativos, revisão de portfólio, renegociação de dívidas e redução de estruturas.
A escala continuará importante, mas, sem produtividade, poderá se transformar em custo. O varejo que sair desse processo precisará converter capital, dados, pessoas, tecnologia e execução em resultado. Para Brenha, crescer sem margem, caixa e produtividade não deve mais ser confundido com estratégia.
Paulo Brenha atua desde 2007 em gestão comercial, experiência do cliente e desenvolvimento de negócios. Ele é autor dos livros “Varejo com propósito e resultado” e “Quem Você Se Torna Quando Lidera”.









