A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) pediu ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas que responsabilize o Irã por descumprir salvaguardas destinadas a impedir o desenvolvimento de armas nucleares. A decisão foi anunciada na última quarta-feira (9), após uma votação em que 23 governadores apoiaram o encaminhamento. Rússia, China e Níger votaram contra.
A medida se baseia em uma resolução aprovada em junho de 2025, que declarou o Irã em situação de descumprimento das salvaguardas nucleares. O Conselho de Segurança ainda não indicou como responderá. Rússia e China têm poder de veto e podem bloquear unilateralmente ações propostas.
Deterioração das inspeções
O acordo nuclear de 2015, conhecido como JCPOA, estabeleceu limites para o programa nuclear iraniano e criou um sistema de verificação da AIEA com câmeras, sensores, lacres e inspeções presenciais. Quando entrou em vigor, em janeiro de 2016, a agência certificou que o Irã cumpria os termos.
A situação começou a mudar em 2019. Em julho daquele ano, inspetores informaram que o país havia acumulado urânio pouco enriquecido acima do limite previsto no acordo. No mesmo ano, Teerã retomou o enriquecimento em instalações onde a atividade era proibida pelo JCPOA.
Em 2020, inspetores foram impedidos de acessar dois locais suspeitos de atividades relacionadas a armas nucleares. Depois, uma lei aprovada pelo Parlamento iraniano em dezembro de 2020 reduziu a cooperação com a AIEA e determinou o enriquecimento de urânio a 60% de pureza, caso as sanções dos Estados Unidos não fossem reduzidas.
O Irã desativou câmeras da agência em uma oficina de centrífugas em Karaj em 2021 e exigiu a retirada dos equipamentos restantes em junho de 2022. Segundo a AIEA, inspetores também sofreram revistas físicas invasivas naquele período.
Em janeiro de 2023, a agência encontrou em Fordow um conjunto não declarado de centrífugas que enriquecia urânio a até 83,7% de pureza, próximo ao grau militar de cerca de 90%. Depois, o Irã expulsou o inspetor que identificou a alteração na instalação e outros especialistas da AIEA.
Acesso interrompido
A AIEA aprovou a resolução de junho de 2025 após apontar interferência, enriquecimento contínuo e falta de transparência sobre instalações nucleares não declaradas. Israel iniciou ataques contra o Irã no dia seguinte, e os Estados Unidos bombardearam instalações em Fordow, Natanz e Isfahan menos de duas semanas depois.
Desde fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel iniciaram uma campanha aérea contra o Irã, a AIEA não visitou instalações nucleares iranianas, com exceção da usina de Bushehr. A agência também não inspecionou os locais atingidos pelos bombardeios de junho de 2025.
A interrupção fez a AIEA perder a continuidade de conhecimento sobre o urânio, as centrífugas e outros itens iranianos que estavam sob monitoramento. Por isso, a agência não consegue atestar a situação, a quantidade ou a localização desses materiais.
Rafael Grossi, chefe da AIEA, classificou a expulsão de inspetores como um “golpe muito sério” para a capacidade de monitoramento. James Acton, físico do Carnegie Endowment for International Peace, afirmou que há “50% de chance de o Irã obter a bomba” nos próximos três anos.
A missão diplomática do Irã junto à AIEA chamou a resolução de política e disse que ela foi aprovada sem consenso. O Conselho de Segurança deverá decidir se haverá novas consequências internacionais por uma suposta violação do Tratado de Não Proliferação Nuclear. Em 2006, o órgão havia aprovado medidas que incluíram sanções contra Teerã.








