A imprensa russa trata o Brasil como um aliado importante do Sul Global, possível parceiro para contornar sanções relacionadas à guerra da Ucrânia e mercado para exportações da Rússia. Apesar disso, a eleição brasileira recebeu pouco espaço nos principais telejornais do país.
Vitaly Shevchenko, analista de mídia russa da BBC Monitoring, afirma que o baixo interesse público indica que o Kremlin não quer divulgar sua posição sobre o pleito. Segundo ele, a imprensa russa é amplamente controlada pelo governo e a maioria da população se informa pela televisão.
"A ausência de ampla repercussão na mídia sobre as eleições brasileiras sinaliza apenas uma coisa: o Kremlin não tem interesse em que o público, dentro e fora da Rússia, tome conhecimento da sua visão sobre o pleito", disse Shevchenko.
Brics e comércio bilateral
A cobertura russa está concentrada principalmente na guerra da Ucrânia. Ainda assim, o Brasil é considerado relevante por integrar o Brics, grupo que Vladimir Putin apresenta como parte do Sul Global e como alternativa à ordem internacional dominada pelos chamados países anglo-saxões.
Famil Ismailov, editor da BBC News Russia, afirma que os analistas russos veem a disputa brasileira como apertada e não apontam um favorito. Para ele, qualquer vencedor deverá manter relações semelhantes com Moscou, devido à dependência brasileira de fertilizantes e diesel russos e ao interesse da Rússia em carne, soja e café do Brasil.
O jornal Vedomosti avaliou que a Rússia se sentiria confortável tanto com Luiz Inácio Lula da Silva quanto com Flávio Bolsonaro. A publicação, porém, indicou maior conforto com Lula, enquanto Flávio seria visto como mais próximo de Washington e potencialmente menos comprometido com o Brics.
O Izvestia destacou a possibilidade de ampliar o comércio entre Brasil e Rússia em reais e rublos. Atualmente, segundo o jornal, esse tipo de transação representa 10% do comércio bilateral. A mudança poderia reduzir a dependência de bancos e sistemas financeiros ocidentais e ajudar Moscou a driblar sanções.
O projeto dependeria do resultado eleitoral. O jornal afirmou que uma mudança de governo poderia interromper as negociações, enquanto a permanência de Lula favoreceria a cooperação com o Brics e o uso de moedas nacionais.
Disputa eleitoral e liberdade de imprensa
O Rossiyskaya Gazeta descreveu a eleição como indefinida e afirmou que Lula e Flávio Bolsonaro apresentam propostas econômicas diferentes. O jornal relacionou os dois candidatos aos desdobramentos do escândalo do Banco Master e disse que o caso teria afetado a disputa.
Já o Pravda apresentou Lula como defensor de uma política independente em relação aos Estados Unidos e criticou Flávio Bolsonaro. A publicação é ligada ao Partido Comunista da Rússia, mas é considerada pouco lida e sem influência no país.
A Repórteres Sem Fronteiras colocou a Rússia na 9ª pior posição entre 180 países em seu ranking de liberdade de imprensa. O Brasil aparece na 52ª posição e os Estados Unidos, na 64ª. A organização afirma que a situação russa se deteriorou após a invasão da Ucrânia, com veículos independentes banidos, bloqueados ou classificados como agentes estrangeiros e organizações indesejadas.









