Relatórios da Polícia Federal indicam uma relação próxima entre Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Os documentos foram elaborados com base em dados extraídos do celular de Vorcaro e tiveram o sigilo retirado por decisão do ministro André Mendonça.
A PF identificou ao menos 52 mensagens enviadas entre dezembro de 2023 e novembro de 2025 para um número salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. As respostas atribuídas ao ministro não aparecem no material divulgado. Segundo a investigação, Vorcaro usava mensagens temporárias, notas do celular e capturas de tela para enviar parte do conteúdo pelo WhatsApp.
Em 15 de novembro de 2025, Vorcaro perguntou: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. No dia seguinte, questionou se havia chance de algo ocorrer na manhã seguinte. Na noite de 17 de novembro, pouco antes de ser preso, informou que estava a caminho de uma viagem ao exterior. O ex-banqueiro foi preso preventivamente, e, na manhã seguinte, a PF deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master.
Encontros e contratos
A investigação também registrou ao menos seis encontros entre Moraes e Vorcaro, entre fevereiro de 2024 e agosto de 2025. O primeiro contato teria sido intermediado em 2023 por Fábio Faria. Em 2 de fevereiro de 2024, os dois participaram de um jantar com suas esposas. Outros encontros ocorreram em novembro de 2024, março de 2025, abril de 2025 e 8 de agosto de 2025.
O escritório Barci de Moraes, de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, assinou contrato com o Banco Master no valor de mais de R$ 130 milhões. O acordo previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões durante três anos, de 2024 a 2027. Com a liquidação do banco, em novembro do ano passado, os pagamentos foram interrompidos.
Dados da Receita Federal enviados à CPI do Crime Organizado em abril apontaram que o escritório recebeu R$ 80,2 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025. Em março, o escritório informou ter produzido 36 pareceres jurídicos e opiniões legais, com 79 reuniões na sede do banco e dois encontros por videoconferência.
Outro contrato, de até R$ 50 milhões, foi firmado em 12 de maio de 2025 entre o escritório e a Viking Participações, empresa representada por Vorcaro. Em 19 de maio, um acordo definiu que R$ 40 milhões seriam pagos com participações em duas empresas ligadas a aeronaves. Juntos, os contratos previam até R$ 158 milhões em honorários.
Voo e crise no Supremo
Em 22 de agosto de 2025, Alexandre de Moraes e Viviane de Moraes usaram uma aeronave ligada a Vorcaro. O desembarque ocorreu no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Segundo a PF, o avião Legacy 650 pertencia a uma empresa de Vorcaro. O escritório afirmou que contrata serviços de táxi aéreo e que Daniel Vorcaro não esteve nos voos realizados com integrantes do escritório.
Após a divulgação dos documentos, Moraes acusou Mendonça, por meio do inquérito das fake news, de improbidade administrativa e abuso de autoridade, além de pedir uma investigação contra o ministro. Edson Fachin deu cinco dias para Moraes, Mendonça, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues se manifestarem.
Em sessão realizada na última terça-feira (15), Flávio Dino pediu vista e suspendeu o julgamento. O placar parcial era de 4 a 3 pela separação das análises dos casos envolvendo Moraes e Mendonça. Na última quinta-feira (17), Fachin adiou a análise da conduta de Mendonça, prevista para a próxima quarta-feira (23).
A PF também investiga contatos de Vorcaro com Gonet e Andrei Rodrigues. Uma foto extraída do celular do ex-banqueiro mostra o procurador-geral da República ao lado de Vorcaro durante uma festa em Londres.








