O uso de agonistas de GLP-1 e GIP, como semaglutida e tirzepatida, para fins exclusivamente estéticos pode favorecer comportamentos alimentares excessivamente restritivos, especialmente em pessoas vulneráveis a transtornos alimentares. O alerta é da endocrinologista e metabologista Elaine Dias JK, PhD pela Universidade de São Paulo (USP).
Esses medicamentos têm indicação no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. A preocupação está no uso por pessoas que não têm uma doença a tratar e buscam perder poucos quilos rapidamente, atingir um padrão corporal ou evitar o ganho de peso.
Análises de padrões de prescrição mostram que o uso por pessoas sem as indicações clássicas passou de 4,5% em 2018 para 17% em 2023. Nos Estados Unidos, uma pesquisa de novembro de 2025 apontou que cerca de 1 em cada 8 adultos já usou algum medicamento dessa classe.
O que significa agonorexia
O termo agonorexia começou a circular para descrever situações em que a supressão intensa do apetite provocada pelos remédios se combina com uma relação conflituosa com o corpo e a comida. A expressão não é um diagnóstico médico reconhecido pelos principais manuais de psiquiatria.
Os medicamentos que atuam sobre GLP-1 e GIP reduzem a fome e também podem influenciar mecanismos ligados à recompensa e ao interesse por alimentos. Para pessoas com indicação clínica, esse efeito pode fazer parte do tratamento. Em alguém pressionado pela busca da magreza ou com risco de transtorno alimentar, porém, a redução da fome pode levar a uma restrição além do saudável.
Uma perspectiva publicada no início deste ano no New England Journal of Medicine discutiu a necessidade de avaliar com mais cuidado a relação entre os agonistas e os transtornos alimentares. O alerta não afirma que os remédios provoquem, sozinhos, um distúrbio psiquiátrico. A questão é observar quem usa as terapias, por quais motivos e quais comportamentos surgem ou se intensificam durante o tratamento.
Perda de peso e saúde
A perda rápida de peso sem acompanhamento pode comprometer a massa magra. Em uma subanálise de composição corporal de um estudo sobre semaglutida em pessoas com sobrepeso ou obesidade, quase 40% do peso perdido veio de tecido magro.
Por isso, o acompanhamento da composição corporal, a alimentação adequada e os exercícios de força fazem parte de um tratamento responsável. Emagrecer não significa necessariamente preservar músculos, força e qualidade de vida.
Também pode surgir um medo intenso de interromper o medicamento por receio de recuperar os quilos perdidos. Quando o remédio passa a ser visto como uma garantia emocional contra o ganho de peso, é necessário avaliar a relação da pessoa com a medicação e com o próprio corpo.
As redes sociais tornam o cenário mais complexo ao mostrar transformações sem apresentar, necessariamente, diagnóstico, indicação médica, efeitos adversos, acompanhamento nutricional ou histórico de saúde. Para Elaine Dias JK, as terapias são ferramentas valiosas no cuidado de pacientes com obesidade e doenças metabólicas, mas não devem ser tratadas como atalho para atingir um padrão estético.








