SÃO PAULO — Negociação contínua, liquidação instantânea, transações programáveis e stablecoins estão entre as inovações financeiras impulsionadas pelo setor de criptoativos, na avaliação de André Portilho, head de ativos digitais e sócio do BTG Pactual.
Para Portilho, o mercado de cripto funcionou como um laboratório de inovação e, agora, parte dessas soluções começa a ser incorporada pelas instituições financeiras tradicionais. Ele também defende a ampliação do mercado de derivativos de cripto no Brasil, por considerar que esse segmento melhora a formação de preços, reduz spreads e aumenta a liquidez.
O executivo afirmou que o bitcoin continua sendo um diversificador de carteiras e pode funcionar como reserva diante de rupturas no mercado financeiro tradicional. Também citou a relevância do ativo em jurisdições complexas e em estratégias relacionadas ao risco de perda do poder de compra das moedas.
Tokenização e infraestrutura
Portilho monitora o avanço de ações tokenizadas, mas considera que o maior potencial está em ativos de renda fixa e em instrumentos usados como garantia em operações financeiras. Na avaliação dele, a adoção deve começar por produtos que atendam tanto ao varejo quanto a clientes institucionais.
Ele afirmou que a tokenização de produtos é relativamente simples, mas que a distribuição depende da adaptação de sistemas legados. Controles de saldo, extratos, compliance e integração com os participantes já existentes estão entre os desafios para levar esses ativos a mais clientes.
O sócio do BTG disse que 2027 pode marcar uma aceleração da tokenização, mas rejeitou previsões categóricas sobre o tema. Para ele, o mercado de ações tende a ser um dos últimos a passar por esse processo, enquanto ativos usados como colateral podem avançar antes.
As stablecoins já representam um caso relevante de tokenização, segundo Portilho. Ele citou US$ 350 bilhões em ativos tokenizados nesse mercado e afirmou que a transformação da infraestrutura financeira tende a ser mais rápida que a migração do sistema analógico para o digital, mas não ocorrerá de forma imediata.
Regulação e stablecoins
Portilho considera que a regulação é necessária para que a tokenização alcance escala, mas avalia que não há uma regra única adequada para todos os ativos. Tokenizar uma Nota do Tesouro Nacional, um título corporativo ou uma ação envolve características diferentes, segundo ele.
Na visão do executivo, as normas deveriam considerar todo o ciclo do produto, da originação à pós-liquidação, além das funções desempenhadas por intermediários. Ele também avaliou que a adaptação dos sistemas tradicionais e o ambiente regulatório são tão importantes quanto a tecnologia usada.
Sobre as stablecoins, Portilho prevê a existência de milhares de projetos, mas concentração do volume em poucas empresas. “Acredito que duas ou três stablecoins vão ter 90% do volume do mercado”, declarou.
Ele considera positiva a iniciativa Open Standard, que reúne 140 instituições globais para criar uma stablecoin de dólar, mas disse que o desafio será colocar o projeto em funcionamento. O BTG não participa da iniciativa, embora a acompanhe de perto.
BTG e segurança
A integração da Mynt ao BTG Pactual está relacionada à regulação e à concentração das operações em uma única marca. Portilho afirmou que o objetivo é oferecer produtos tradicionais e cripto em um mesmo ambiente.
O banco também trabalha na adaptação de sua infraestrutura para a tokenização de produtos. Na área de custódia, o executivo destacou a necessidade de tecnologia, processos robustos, especialistas e parceiros adequados. Para ele, os principais riscos estão em falhas operacionais, incompetência e ações indevidas.
Portilho avaliou ainda que o Banco Central vem adaptando a regulação ao avanço do mercado e aos riscos associados a fraudes e à circulação de recursos ilícitos. Ele citou a resolução 521, que incluiu ativos digitais no mercado de câmbio, como exemplo de uma norma que ficou menos restritiva após a consulta ao mercado.








