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Antropóloga diz que deboche a ‘CEO de MEI’ ignora busca por dignidade
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Antropóloga diz que deboche a ‘CEO de MEI’ ignora busca por dignidade

Rosana Pinheiro-Machado afirma que o marketing digital amplia sonhos, mas leva milhões à frustração e reforça o individualismo político.

A antropóloga brasileira Rosana Pinheiro-Machado afirma que o crescimento do empreendedorismo digital no Brasil expressa uma busca por autonomia, respeito, conforto e dignidade — e não deve ser tratado com deboche por setores da esquerda ou pela classe média.

Pesquisadora na University College Dublin, na Irlanda, ela acompanha aspirantes a empreendedores digitais e diz que a maioria não consegue transformar os planos em crescimento financeiro. A frustração, segundo ela, costuma ser direcionada ao Estado, a beneficiários do Bolsa Família ou aos próprios trabalhadores, que passam a acreditar que não se esforçaram o suficiente.

“Eu não quero dizer toda essa população está sendo manipulada por esses influencers”, afirmou Rosana. Para ela, existe um encontro entre as expectativas dos trabalhadores e as promessas feitas nas redes sociais.

Marketing digital e política

A antropóloga considera o fenômeno essencialmente brasileiro. O chamado marketing digital reúne influenciadores e coaches que oferecem promessas de renda extra, prosperidade e mudança de vida. De acordo com as pesquisas citadas por Rosana, 90% dos influenciadores desse campo estão alinhados de alguma forma à extrema direita.

Ela descreve o modelo como uma “pirâmide aspiracional”: uma pessoa começa vendendo um produto ou serviço, compra cursos para melhorar sua presença digital e, depois, pode passar a vender mentorias sobre empreendedorismo. A base de dados acompanhada pelo laboratório reúne dois milhões de aspirantes a empreendedores digitais, mas o crescimento financeiro desse grupo é praticamente nulo.

Para Rosana, a frustração nem sempre rompe com esse sistema. Muitas pessoas culpam a si mesmas, pagam outro coach, tentam novamente e trabalham mais horas. Esse processo reforça a ideia de que cada indivíduo é o único responsável pelo próprio sucesso ou fracasso.

A pesquisadora também afirma que a plataformização do trabalho não se limita a entregadores de aplicativos. Ela inclui profissionais que dependem das redes sociais para conseguir clientes, como psicólogos, médicos e donos de pequenos negócios. A pressão para trabalhar e, ao mesmo tempo, manter um perfil ativo pode gerar sofrimento, exaustão, isolamento e decepção.

O sentido de ser “CEO”

Rosana critica a expressão “CEO de MEI” quando usada para ridicularizar pessoas que vendem produtos, trabalham com artesanato ou mantêm pequenos negócios. Para ela, o título pode representar uma forma de escolher como o trabalhador quer ser visto, em vez de aceitar os rótulos impostos pela sociedade.

“Minha proposta não é ridicularizar esse processo, é o oposto”, disse. A antropóloga relata o caso de uma ex-camelô que passou a se chamar de CEO porque considerava o termo chique e porque, nas redes sociais, podia definir a própria identidade.

A pesquisadora afirma que a população ampliou sua capacidade de aspirar, inclusive durante governos do PT, e que políticas públicas precisam acompanhar esse movimento. Na avaliação dela, não basta criar empregos: é necessário oferecer proteção social, bons salários, folgas e reconhecimento.

Apostas e reação política

Rosana também relaciona o debate sobre as bets às disputas políticas no ambiente digital. Em uma pesquisa nacional com mulheres empreendedoras populares, 80% disseram repudiar as apostas e 60% afirmaram ter a vida impactada por elas ou conhecer alguém nessa situação.

Ela avalia que a proibição das bets anunciada por Luiz Inácio Lula da Silva pode aproximar o governo de mulheres que convivem com os efeitos das apostas dentro de casa. Para a antropóloga, influenciadores podem falar principalmente com apostadores e seguidores já alinhados politicamente, enquanto o governo teria a oportunidade de tratar de problemas concretos da vida cotidiana.

Texto produzido pela Redação Voz em Pauta com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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