Vídeos de bispos sobre a soberania do Brasil e da Amazônia ganharam espaço nas redes sociais na reta final antes do primeiro turno da eleição presidencial. As mensagens não citam apoio direto a Luiz Inácio Lula da Silva, mas foram interpretadas como próximas de temas usados pelo governo e pela campanha do presidente.
O material publicado na segunda-feira (21/09) reúne bispos do Amazonas e de Roraima, da Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Em um dos trechos, dom Frei Samuel Ferreira, bispo auxiliar da Arquidiocese de Manaus, relaciona soberania, democracia e proteção das riquezas nacionais.
Também voltou a circular uma fala de dom Orlando Brandes, arcebispo emérito de Aparecida, durante uma missa em 7 de Setembro deste ano. Ele afirmou que era preciso defender a soberania e que nenhum poder externo deveria mandar no Brasil.
O bispo dom Francisco Lima, coordenador do Grupo de Análise de Conjuntura Padre Thierry Linard, ligado à CNBB, disse não acreditar em finalidade eleitoral. Para ele, as mensagens estão de acordo com a doutrina da Igreja, mas religiosos deveriam evitar manifestações desse tipo durante a campanha.
“Uma fala isolada de um bispo isolado pode fazer assimetria com relação aos outros”, declarou Lima. Segundo ele, integrantes do grupo que coordena chegaram a classificar soberania como uma palavra que deveria ser evitada no período eleitoral, por sua possível repercussão política.
Disputa sobre Nossa Senhora Aparecida
As publicações sobre os bispos se somaram à polêmica sobre uma suposta proposta para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Perfis de esquerda associaram a iniciativa a Flávio Bolsonaro, que negou a informação e pediu à Justiça Eleitoral a remoção de posts.
O único projeto de lei com esse objetivo foi apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli (PMDB-MT) e arquivado em 2008. Não há registro de participação de Flávio Bolsonaro na proposta.
O ministro André Mendonça determinou a derrubada de publicações que relacionavam Flávio Bolsonaro e sua família a uma articulação nesse sentido. Meta, X, TikTok e YouTube foram orientados a adotar medidas contra a disseminação do conteúdo. Em decisão preliminar, o tribunal já havia afirmado não existir “suporte fático mínimo” para a alegação.
A primeira-dama Janja da Silva publicou uma foto de Lula segurando uma imagem da santa. Geraldo Alckmin, vice-presidente e candidato à reeleição na chapa de Lula, afirmou ter recebido mensagens de católicos preocupados com os rumos do país e prometeu preservar as tradições religiosas em um eventual novo governo.
A CNBB informou que sua orientação para o período eleitoral é a mensagem publicada aos fiéis em 18 de junho. O texto defende atenção à desigualdade social, à corrupção, à compra de votos, ao uso indevido de recursos públicos e à disseminação deliberada de mentiras. A entidade também cita a confiança nas instituições democráticas, no Estado Democrático de Direito, na independência dos Poderes e na liberdade de expressão.
Religião e intenção de voto
Para o sociólogo Alexandre Landim, autor do livro O Deus das urnas: evangélicos e católicos em eleições presidenciais no Brasil, os vídeos podem ser interpretados como uma manifestação de caráter mais progressista, embora tenham conteúdo educativo e não indiquem apoio explícito a Lula.
O padre jesuíta Luís Corrêa Lima, professor de teologia da PUC-Rio, avaliou que as falas estão relacionadas à doutrina social da Igreja e a documentos recentes do papa Francisco e do papa Leão 14. Ele afirmou que, no contexto eleitoral, os discursos podem favorecer candidatos diferentes, cabendo aos fiéis fazer essa avaliação.
A pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (24/9) apontou diferenças entre católicos e evangélicos. Entre os católicos, 45% disseram pretender votar em Lula no primeiro turno, enquanto 33% preferiam Flávio. Entre os evangélicos, Flávio tinha 47%, contra 27% de Lula.
Landim afirmou que a religião se tornou um determinante do voto e que essa divisão vem se consolidando desde 2010. Ele também disse que a Igreja Católica reúne correntes progressistas e conservadoras e não tem uma posição única.
Na avaliação do sociólogo, as falas dos líderes católicos podem animar o debate religioso, mas não devem alterar a orientação dos votos. A ativação desse eleitorado, porém, pode aumentar a animosidade entre grupos religiosos.









