SÃO PAULO — O Instituto Conhecer Brasil repassou R$ 16,7 milhões à empresa contratada para instalar pontos do programa WiFi Livre SP na periferia de São Paulo. A presidente do instituto, Karina Ferreira da Gama, acusa a fornecedora de exigir cerca de R$ 2,5 milhões e ameaçar prejudicar a imagem da organização.
O caso consta em um boletim de ocorrência registrado no 78º Distrito Policial e em documentos entregues pelo instituto à polícia. O material integra o inquérito que apura suspeitas de fraude em um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo.
Em decisão deste domingo (13), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o fim do sigilo dos autos enviados pela Justiça estadual de São Paulo. No boletim, Karina afirmou que as cobranças foram feitas por meio da representante jurídica da empresa e seriam “desprovidos de lastro contratual”. Ela também relatou ameaças de exposição na imprensa e divulgação de informações internas.
Valores dos contratos
Em 25 de junho de 2024, cinco dias após o acordo do instituto com a prefeitura, foi firmado contrato com a fornecedora para instalar e manter 5 mil pontos de Wi-Fi. O valor unitário era de R$ 512,93, em um total de R$ 30,7 milhões.
Em 15 de julho, outra empresa foi contratada para instalar 2 mil pontos nas zonas sul e oeste, por R$ 12,3 milhões. Segundo o relatório do instituto, a primeira fornecedora recebeu R$ 14,1 milhões pelo contrato inicial e mais R$ 2,58 milhões em bens e materiais.
O documento também registra déficit de R$ 4,6 milhões submetido a auditoria interna e fornecedores em débito de R$ 1,1 milhão. A prefeitura reduziu o programa de 5 mil para 3.200 pontos e o contrato passou de R$ 108 milhões para R$ 69,1 milhões. Em aditivo posterior, o valor por ponto caiu de R$ 1.800 para R$ 1.280.
Karina declarou que o sinal foi desligado de forma deliberada e que o ex-fornecedor teria pedido R$ 2,5 milhões para não prejudicar o projeto. As acusações são versão da produtora e não representam conclusão da investigação. A empresa sustenta que houve irregularidades na condução do contrato e cobra valores que afirma ter a receber.
A fornecedora foi alvo da Operação Wi-Fi, deflagrada pela Polícia Civil em 1º de junho. Em sua sede, em Guaianases, foram apreendidos um celular, documentos, o contrato com o instituto e notas fiscais.
Investigação e respostas
Na decisão que retirou o sigilo, Flávio Dino mencionou Mario Frias e uma linha de investigação sobre possíveis vínculos com o PCC (Primeiro Comando da Capital). A Polícia Federal apontou um “circuito financeiro fechado” envolvendo Frias, o Instituto Conhecer Brasil, a empresa contratada e a ANC (Academia Nacional de Cultura).
A PF afirmou que a empresa recebeu transferências feitas diretamente por Frias, devolveu valores ao instituto e repassou quantias à ANC. Para os investigadores, as movimentações não seriam compatíveis com relações negociais independentes e justificadas.
A defesa de Karina afirmou que ela não praticou ilícito e que continuará colaborando com as autoridades. A Prefeitura de São Paulo declarou que não identificou irregularidades na assinatura e na execução do acordo. Informou ainda que o programa funciona com 3.200 pontos e mais de 760 milhões de acessos, e que a Controladoria Geral do Município acompanha o caso desde as primeiras denúncias. Em maio de 2026, o órgão instaurou procedimento de apuração, ainda em andamento.







