SÃO PAULO — O tratamento de transtornos mentais deve incluir também o acompanhamento da saúde física. Obesidade, diabetes, alterações no colesterol e pressão alta podem interferir na evolução dos pacientes e precisam ser consideradas junto do controle dos sintomas psiquiátricos.
A relação funciona nos dois sentidos. Doenças cardiovasculares e metabólicas, além da obesidade grave, estão associadas a um risco maior de depressão, ansiedade e alterações cognitivas. Pessoas com transtornos mentais graves também apresentam maior risco de desenvolver essas condições clínicas.
“Um paciente com transtorno mental grave nem sempre consegue cuidar da parte clínica de forma adequada”, afirma Gabriel Okuda, psiquiatra do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo (SP). Segundo ele, unir o cuidado psiquiátrico ao acompanhamento físico melhora o prognóstico.
O tema foi discutido no Congress on Brain, Behavior and Emotions 2026, realizado em junho, em Porto Alegre (RS).
Hábitos que fazem parte do cuidado
A atividade física é considerada uma estratégia não farmacológica para quadros como depressão e ansiedade. Caminhadas ao ar livre, deslocamentos a pé quando possível, pausas para se movimentar e o uso de espaços públicos podem ajudar a incluir movimento na rotina. A escolha deve levar em conta as condições de saúde e as possibilidades de cada pessoa.
O sono também tem relação de mão dupla com a saúde mental. Depressão e ansiedade podem estar associadas à insônia, enquanto noites mal dormidas podem aumentar a vulnerabilidade a esses sintomas. “Se a gente não melhora a qualidade de sono do paciente, muitas vezes ele não melhora os sintomas depressivos e ansiosos”, diz Okuda.
O psiquiatra também cita a redução do consumo de alimentos ultraprocessados e o cuidado com o excesso de cafeína e álcool. Vínculos sociais são outro fator relevante: isolamento e solidão estão associados a maior risco de depressão e ansiedade. O contato de qualidade com familiares e amigos pode integrar a prevenção e o tratamento.
Impacto ao longo da vida
Em pessoas que convivem com transtornos psiquiátricos por décadas, o cuidado físico ganha importância. Pacientes com esquizofrenia, transtorno bipolar e depressões mais graves podem ter expectativa de vida entre 10 e 20 anos menor que a população geral, segundo Okuda.
A dificuldade de acompanhar a própria saúde pode contribuir para uma morte precoce. Por outro lado, atividade física, alimentação melhor, acompanhamento médico, sono adequado e redução do uso de álcool e cigarro podem favorecer a qualidade de vida, o envelhecimento e o prognóstico dos quadros psiquiátricos.








